Afinal, a psicanálise ajuda?

Apesar de afirmar que uma boa questão muitas vezes, vale mais que uma resposta, me esforçarei para transmitir em que sentido um tratamento psicanalítico pode auxiliar alguém que encontra-se em sofrimento.

A psicanálise, descoberta por Sigmund Freud é uma proposta de cuidar do sofrimento humano entre outras. As formas de sofrer variam com o passar do tempo e via de regra, estão vinculadas com a sociedade, seu discurso e seus modos de laço social.

Hoje, sofremos de e por várias coisas. Destacarei a tristeza e como denomino a desautorização ao sofrimento. Vivemos em uma época de emergência e de um ideal de felicidade. Uma felicidade absoluta, sem limites. O discurso da ciência propõe que quem não é ou está feliz, encontra-se em estado depressivo. Consequentemente, o método de “tratar” o ser humano entendido como o mais eficaz para alcançar este ideal é: o uso de substâncias químicas que “prometem” fornecer a ilusão deste estado. Claro que há pessoas que necessitam de uma medicação para sair da cama, para controlar o mau delírio.

A problemática colocada é que ninguém pode se autorizar a viver um luto, uma separação, uma frustração sem ser medicado. Imaginem! Trat-se luto com remédio! É impossível ficar calada. Há uma infantilização do homem, uma desresponsabilização da pessoa pelo seu sofrimento. Há também, um desrespeito ao ser humano e sua dor. Este deve expulsar qualquer forma de sofrer e anestesiar-se como puder! Vejam o imperativo!

O ideal de felicidade, se presta para nunca ser alcançado, para deixar o sujeito eternamente na condição de insatisfeito. Auto-recriminações constantes, sensação de menos valia, procrastinação, inibição do potencial criativo são exemplos do efeito do discurso científico que ordena: goze a qualquer custo e elimine tudo que incomoda.

Ninguém tem o poder de tirar um sofrimento de alguém! Isso é ético. Somente o sujeito que busca uma ajuda, seja aonde for, poderá transformar a dor em material de trabalho e combustível para continuar sua caminhada. Isso se a ajuda for efetiva.

A crença que esta tal felicidade absoluta exista, corta o corpo do sujeito em pedaços, torna-o transparente aos olhos da ciência e a-histórico. Ele se reduz ao corpo biológico, aquele que faz ou não sinapses eficientes. Mas é só isso? Somos somente um corpo? Não sonhamos? Não erramos? Não desejamos?

A psicanálise pode ajudar uma pessoa a sair da procrastinação, a viver uma tristeza e poder elaborá-la. Pode auxiliar também ao retorno da atividade criativa e ao sujeito se responsabilizar pelas escolhas e pelo modo de gozar neste mundo.

Pode ajudá-lo á esquecer que seu corpo é somente material. Há uma imaterialidade que nos move.

E sobre essa tal felicidade? Ela pode ser encontrada. Não nos moldes totalitários mas nas pequenas vivências do dia a dia. Conviver com os próprios limites com humor, poder rir de si próprio e contornar o que é possível para cada um traz felicidade. Uma alegria interna. Não vem de fora, do remédio, da fala do médico, da mãe, mas sim, do âmago do ser.

Em uma análise, estes limites e o humor são encontrados. Poder se responsabilizar pela dor e a delícia de ser o que se é, diz respeito a uma mudança qualitativa na vida de todo ser humano.

A psicanálise possibilita este processo de mudanças qualitativas que acompanharão o sujeito em sua trajetória. O caminho é único e singular. Aponto que a mudança qualitativa é a que tem seus efeitos e se faz eficaz na rotina de cada um. Mas como?

Partir da qualidade afeta a quantidade. Isso quer dizer que as questões da vida prática acabam evoluindo quando o sujeito se transforma.

Por exemplo, se alguém fazia dívidas constantes, pode ser que após um trabalho analítico, a relação com a dívida é bem provável que se modifique.  Pessoas que não se permitiam chorar, em função da ideia de que “chorar é para fracos”, podem ser questionadas sobre esta verdade e chorar até onde for necessário para que avançem psíquicamente.

E sujeitos que sofrem por achar que não sabem amar! O que é o amor? Após a experiência analítica, o sujeito encontra uma forma de amar que vai além da forma narcísica do amo a minha imagem no outro.

Pessoas que se sabotam, em uma análise podem saber mais sobre isso. Saber mais sobre o que nos causa pode facilitar a realização do que desejamos.

E o sofrimento e angústia dos pais? Porque o filho não faz tal coisa, vai mal na escola, responde, usa drogas, não come, come demais, é agressivo, foge de casa, tem transtornos…

A experiência analítica mostra que trabalhar as fantasias inconscientes dos pais muitas vezes libertam os filhos de uma análise ou terapia. Todos saem ganhando!

E o vazio? O vazio, a solidão e a dificuldade na relação amorosa? O vazio, a análise vai contornando e com o tempo a pessoa vai elaborando e sofrendo menos com isso.

A solidão é uma condição de todo humano que aponta para a noção de um desamparo fundamental. Somos desamparados desde o nascimento! A solidão é uma questão para o ser, estando em uma relação amorosa, estando colado no filho ou estando só, a solidão é tratada na psicanálise de uma maneira ética.

Ela pode trazer angústia, ansiedade, medo, baixa libido, enfraquecimento do laço social, baixa produtividade e sensações de menos valia…

Falar para um analista sobre o estado de desamparo explicitado pelo sentimento de solidão pode mudar a maneira como você se relaciona com sua condição de incompletude. Isso está longe de um ideal de felicidade absoluta e perto de uma ética do desejo.

Dificuldades de relacionamento com o filho, com o parceiro (a), sempre surgem no processo psicanalítico. Uma das maiores pedras no caminho é lidar com as diferenças. Ou seja, o desejo do outro. Perdemos muito tempo de vida aprisionados ao desejo destes ou deste outro. Uma psicanálise ajuda a saber mais sobre o próprio. Simples assim. Quanto mais nos empenhamos em saber de si, do que nos causa, mais felizes seremos e melhor estaremos para o outro.

Para concluir,  mudanças qualitativas se relacionam diretamente com mudanças na vida cotidiana.

Traduzindo, quanto mais se analisa, maior é a chance de diminuir a pedra do sintoma, do que te faz sofrer e consequentemente, ter uma vida mais feliz e de acordo com o que desejas. Os resultados são eficazes, duradouros e satisfatórios. Vale ressaltar que a cura aparece como solução da própria pessoa e não do remédio ou de algo que venha de fora. Neste sentido, é qualidade que determina quantidade. Ou seja, mudança interna que gera melhorias no dia a dia de cada um.

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